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Para dar início às entrevistas de 2016, conversei com uma jovem muito especial. Marcela Milano é empreendedora social e apaixonada por muitas culturas. Ela é de Curitiba, tem 25 anos e se formou em Relações Internacionais. Com o desejo de contribuir para a integração de imigrantes e refugiados e para a evolução do país, a Marcela criou um projeto que é um verdadeiro exemplo de empatia e cidadania. Além de se dedicar para o seu negócio, ela é viciada em leituras, adora filmes e seriados e ainda busca tempo para os exercícios físicos. Conheça mais sobre o Projeto Linyon e sobre a Marcela a seguir:

20P20T: O que é o Projeto Linyon?

Marcela: O Projeto Linyon é um negócio social que busca trazer à tona o que melhor cada um pode oferecer, com todos os desafios e benefícios da pluralidade cultural. Empoderar o imigrante e o refugiado é a nossa missão e acreditamos que a independência econômica é a melhor forma de atingir a plena integração na sociedade. Com uma ampla rede de empreendedores e executivos, buscamos as conexões certas, encaixando-os no mercado de trabalho de forma segura e assistida, além de auxiliar e incentivar os imigrantes que desejam empreender. 

20P20T: Como ele surgiu? 

Marcela: Tudo começou em 2010, quando fui fazer intercâmbio. A Irlanda é um país que tem um grande número de estrangeiros, com estudantes indianos, brasileiros, coreanos e espanhóis por toda parte. Eu estava lá no auge da crise econômica, quando o país pediu um resgate ao FMI com o estouro de uma bolha imobiliária que ameaçava os bancos nacionais (igual nos EUA em 2008). Crise econômica e grande número de estrangeiros gera um crescimento de nacionalismos e preconceitos (oi, Brasil?!) e lá, pela primeira vez, senti na pele o que é o preconceito apenas por ter nascido em outro lugar. Minha visão sobre imigração mudou radicalmente desde então.

Marcela com colegas da ONG Global Network for Rights and Development, participando da 2ª edição do Bazar Burburinho, arrecadando roupas e alimentos para os refugiados e imigrantes que estão chegando em Curitiba.

20P20T: Por que você decidiu criá-lo? 

A ideia do Linyon foi crescendo e se aprimorando, mas sempre acreditando que seria algo pro futuro. Quando me formei em Relações Internacionais no final de 2014, me bateu a crise. Eu trabalhei a faculdade toda na área corporativa e o propósito começou a pesar. A grande virada de chave aconteceu em junho do ano passado, quando organizava um evento sobre empreendedorismo criativo e conheci o conceito de negócios sociais. A partir disso, pareceu que toda energia do universo conspirou e conheci pessoas incríveis que se tornaram fundamentais pras coisas acontecerem. Em um mês, pedi demissão, montei meu plano de negócios, fui pro Acre, escrevi uma matéria pra Rolling Stone e participei de uma pré-aceleração de negócios sociais em São Paulo.

 20P20T: O que mais te inspira nele?

Marcela: O fato dele não ser assistencialista. Muhammad Yunus, o “pai” dos negócios sociais, fundador do Grameen Bank em Bangladesh e Nobel da Paz, fala que a caridade, assim como o amor, pode se transformar em prisão se construir um sistema de dependência. Quando você dá oportunidade para alguém mostrar seus talentos e a faz vislumbrar a possibilidade de independência econômica, você não só empodera essa pessoa, mas gera profundas mudanças sociais. Existem grandes projetos pelo Brasil que possuem essa mesma visão e atuam com a população local, mas faltava isso para os imigrantes. As instituições que auxiliam com a primeira acolhida aos recém chegados são fundamentais e continuarão sendo, mas faltava o auxílio para o segundo passo, que é o trabalho. Há imigrantes e refugiados com níveis de formação altíssimos e com valiosos talentos, então por que não aproveitarmos isso para também fomentar a nossa economia? A diversidade gera força, e em tempos de crise, é de força e inovação que as empresas precisam. 

20P20T: Como é a sua rotina? Você tem outras atividades além do projeto?

Marcela: Desde julho do ano passado tenho me dedicado integralmente ao Linyon. Estava tocando o projeto sozinha até que conheci a Raquel Correa, em outubro, em mais uma dessas sinergias e conspirações do universo. A Raquel começou a trabalhar comigo de forma voluntária, só que a nossa sintonia foi tão imediata e deu tão certo que começamos 2016 como sócias. Além do projeto, somos voluntárias na Pastoral do Migrante em Curitiba, ajudando os haitianos com as documentações.

Raquel Corrêa e Marcela

20P20T: Desde a criação do Linyon quais descobertas ou surpresas positivas ele lhe proporcionou?

Marcela: Sem dúvida, a melhor surpresa que o Linyon me proporcionou até agora foi devolver a minha crença nas pessoas. Nós convivemos com notícias tão ruins diariamente, que é difícil acreditar que podem nos ajudar sem querer nada em troca. Mas desde que comecei a colocar o projeto na rua, me surpreendi. Quando você realmente acredita em uma causa, você passa credibilidade e paixão e isso atrai ajuda. O Linyon não seria o que é se não fosse pelas diversas pessoas que nos ajudaram, desde a modelagem do plano de negócios, até a produção do nosso site e tantas outras que divulgam e nos apresentam contatos todos os dias. Devo tudo aos amigos, conhecidos e ex-professores que acreditam no nosso trabalho e querem contribuir de algum modo. Esse agradecimento vai pro blog também! 

20P20T: Você teve que abrir mão de alguma coisa para tornar o projeto uma realidade?

Marcela: Empreender não é uma tarefa fácil, exige planejamento, disciplina, determinação, mas principalmente coragem. Como as coisas aconteceram muito rápido, chegou o momento que eu tive que escolher entre seguir pelo caminho em que eu estava, o que significava um salário no final do mês ou aproveitar aquela oportunidade única pra ir atrás de um sonho. Apoio da família é fundamental nessa hora, pois se algo der muito errado, que te faça rever todos os planos, você precisa ter um porto seguro e alguém pra te ajudar a pagar os juros do cartão, até você se ajeitar nos trilhos novamente. Se você puder se planejar financeiramente antes de tomar essa decisão, é melhor. Mas em todo caso, tenha sempre uma reserva de dinheiro, pois nunca se sabe quando o sonho vai bater na porta.  

20P20T: Conte um pouco sobre a sua experiência no Acre. O que mais te marcou e inspirou para seguir em frente com a sua ideia?

Marcela: A viagem do Acre, como tudo, surgiu de uma conversa informal. Conheci o fotógrafo Marcio Pimenta por um amigo em comum. Quando comentei do projeto, logo surgiu a ideia de irmos até lá, pois é a porta de entrada da maioria dos haitianos e senegaleses que chegam ao Brasil e havia pouquíssimo material jornalístico sobre o tema. Depois de algumas conversas, muitas coincidências e várias reuniões, conseguimos patrocínio do Instituto Declatra pra viajar. Ficamos uma semana no Acre, percorrendo todo o trajeto, desde a fronteira com o Peru até a hora que eles embarcam em um ônibus em Rio Branco, com destino ao sul ou sudeste do Brasil. Passamos por quatro cidades, percorremos mais de 300km em ônibus super antigos em um calor sufocante.

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Participar da cerimônia religiosa dos senegaleses é um privilégio concedido à poucas pessoas. A maioria dos senegaleses praticam o Baye Fall, vertente africana do islamismo. Foto de Márcio Pimenta

Vimos pessoas dormindo na calçada esperando abrir o posto da Polícia Federal, visitamos uma haitiana grávida na única maternidade pública da capital, conversamos com um marido ansioso pela chegada da família em Santa Catarina. Foi uma experiência muito intensa e perturbadora, é impressionante a garra que aquelas pessoas tem pra tentar uma vida melhor. Vale acrescentar também o papel fundamental do governo do estado do Acre, um dos poucos estados que atuam de forma efetiva pra resolver a situação, o que contrastou bastante com o descaso e a total falta de empatia dos agentes da PF.  

Na foto de Márcio Pimenta, Marcela está com Steeve (6 anos) e Viergiline Jean (8 anos), pequenos haitianos que aguardam a hora de embarcar no ônibus junto com a mãe, que os levará de Rio Branco até Florianópolis, onde reencontrarão o pai, após três anos de distância.

20P20T: Com tantos fatos acontecendo no mundo, como você imagina o futuro dos refugiados em nosso país? Qual papel os jovens podem ter para quebrar barreiras e preconceitos?

Marcela: O Brasil vive uma péssima fase. Crise econômica, política e social é a melhor combinação pra surgir movimentos xenófobos e nacionalistas, e isso é um perigo para todos. Esse discurso é tão hipócrita, afinal, quase todo brasileiro tem origem na imigração! As pessoas acreditam que os imigrantes vem pra roubar os empregos dos brasileiros, que são os responsáveis pela crise, mas não enxergam o outro lado. Auxiliar na integração destas pessoas, é evitar sérios problemas futuros. Eles já estão aqui e continuarão chegando, quando não encontram trabalho, se veem obrigados a se sustentar de outras formas, e aí, cresce as chances de serem explorados sexualmente, pelo trabalho infantil ou no tráfico de drogas. Imigrantes trazem novos pensamentos, novas culturas e oportunidades de inovação muito grandes pra nossa economia, e isso é comprovado historicamente. São Paulo e Paraná, por exemplo, foram estados que se beneficiaram muito nos séculos XIX e XX com a vinda dos imigrantes, em âmbito econômico, social e cultural.

O papel do jovem é fundamental pra colocar o assunto em pauta, fomentar a discussão entre empresários, sociedade civil, governo e na própria família, cobrando medidas mais efetivas de inclusão. O imigrante não quer se sobressair, tirar vantagens ou impor sua cultura e religião, quer apenas lutar pelas mesmas oportunidades. Escancarar a hipocrisia da nossa sociedade é fundamental pra evoluirmos, pois se fossem americanos e europeus chegando, será que o preconceito seria o mesmo? 

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A Marcela passou por uma verdadeira experiência de empatia, colocando-se verdadeiramente no lugar de uma pessoa de outra cultura. O resultado dessa experiência você confere no texto “E se fosse com você?”

20P20T: Dar uma contribuição para a sociedade através do trabalho é algo que os jovens têm buscado em suas carreiras. Qual dica você dá para aqueles que desejam atuar com negócios sociais?

Marcela: Coragem acima de tudo. Ser um empreendedor social é lidar com todas as adversidades que o empreendedorismo proporciona, com o acréscimo de ter que quebrar preconceitos todos os dias. Não é por que algo sempre foi feito daquele jeito que precisa continuar assim. Inovar é essencial nos negócios sociais, pois trabalhamos diretamente pra resolver problemas que o sistema atual não conseguiu. Acredito que esse é o grande futuro do capitalismo, se quisermos que nossos filhos vivam em um mundo melhor. 

20P20T: Quais são os seus planos e do Linyon para o futuro?

Marcela: Estamos com muitos planos pra 2016, queremos explorar novas frentes, com vários diálogos acontecendo com outros projetos pelo Brasil, para ações conjuntas. Meu foco esse ano é montar a frente de empreendedorismo através do microcrédito, pois estou muito impressionada com a criatividade dos imigrantes. Além do Linyon, esse ano vou me dedicar também a um outro projeto incrível que estou apaixonada, mas ainda estamos em fase de estruturação.  

20P20T: Para você, o que é fazer o que se ama?

Marcela: Fazer o que se ama é ter várias opções, e ainda assim, escolher fazer aquilo todos os dias, com prazer, sem se importar com a hora ou o dia da semana.     

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Marcela conversa com um haitiano, que comenta sobre a vida na Chácara Aliança, abrigo que acolhe migrantes e refugiados em Rio Branco, até a hora do embarque para outras cidades do Brasil. Foto de Márcio Pimenta.

Para acompanhar o Projeto Linyon acesse o site e conheça a página no Facebook. Saiba mais informações fique por dentro de tudo o que acontece em tempo real pelo Instagram  e pelo Twitter 🙂

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Um pensamento em “Marcela Milano: Além das fronteiras e do preconceito

  1. Muito legal a entrevista! Bem completa. Não conhecia negócios sociais até o final do ano passado, quando iniciei a buscar por um tema do meu TCC. Eu e meu grupo escolhemos uma empresa que trabalha com isso e acho um conceito incrível. Parabéns pela matéria!

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