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No mês de outubro, a nossa entrevista é com os jornalistas Fred Di Giacomo e Karin Hueck. Ele tem 31 anos e ela 30. Fizeram o Curso Abril de Jornalismo e acabaram entrando na Editora Abril, ficando lá por bons anos. Os dois tinham uma carreira nos trilhos quando decidiram que queriam fazer mais e dar mais sentido à vida. Casaram-se, mudaram-se, descobriram-se e descobriram também o verdadeiro significado da felicidade. Atualmente, eles têm uma banda (Banda de Bolso). O Fred toca baixo e violão e a Karin toca piano/teclado. Eles gostam muito de ler e escrever e têm alguns livros publicados: “Guten Appetit”, livro sobre a culinária alemã – escrito e editado pelos dois, Haicais Animais e Canções para ninar adultos – livros de ficção escritos pelo Fred. Conheça mais sobre a história do casal e sobre o Glück Project nas palavras do Fred:

20P20T: O que é o Glück Project?

Fred: Glück Project é uma investigação sobre a felicidade. Ele é uma grande reportagem multimídia que começou no site, se espalhou pelas redes sociais, virou vídeo e alguns minidocumentários e agora ganhará um livro. 

20P20T: Como ele surgiu e por que vocês decidiram criá-lo? 

Fred: 2012 havia sido um bom ano pra gente: tínhamos casado, ganhado prêmios profissionais e viajado. Eu havia lançado meu primeiro livro (“Canções para ninar adultos”), mas andávamos questionando bastante o estilo de vida estressante que levávamos. A maior parte das coisas legais que havíamos feito tinham acontecido nos nossos momentos de folga. Na maior parte do tempo, estávamos nos estressando no trânsito, no trabalho, fazendo horas extras, realizando atividades que não faziam muito sentido pra gente. E aí, depois de 9, 10 horas, chegávamos em casa e “começávamos a viver”. Um amigo tinha dito que sua vida “começava quando ele chegava do trabalho” e aquela frase ficou na minha cabeça. A Karin estava bem insatisfeita em ter a mesma rotina a seis anos, ela sempre sonhara em morar um tempo na Alemanha (país da sua família) e queria fazer coisas que fizessem a diferença no mundo.

A ideia, então, era repensar a vida e procurar sentido para o trabalho, os passatempos e a existência. Simples, né? He, he, he. No começo de 2013, nós percebemos que aquele era o melhor momento para fazer isso. Éramos jovens, ainda não tínhamos filhos, era a hora de arriscar!

Nós dois no Ahorn, nosso café favorito em Berlim

20P20T: Pelo o que vocês são apaixonados no Glück? 

Fred: Eu sempre gostei de refletir sobre os grandes temas que angustiam a humanidade: morte, felicidade, liberdade, amor… E no Glück a gente pode estudar muitas dessas coisas, especialmente a felicidade. Como escrevemos no site:

“(…) nós acreditamos que o debate sobre felicidade, arte, compaixão e as grandes questões da vida não precisa ser chato nem piegas. São discussões legais, e têm de fazer parte da vida das pessoas comuns, como nós e vocês.”

Acho que a coisa que mais me traz realização no projeto é sentir que estou ajudando as pessoas, como quando alguém diz que nossos textos mudaram sua vida ou que eles ajudaram a superar uma dificuldade. Isso dá uma sensação de dever cumprido muito bacana, sabe?

20P20T: Como tudo aconteceu?  

Fred: Nós passamos mais ou menos um ano só dedicados ao Glück. Foi a época em que moramos na Alemanha e aproveitamos pra dar uma “mini-volta ao mundo”. Quando a gente chegou em Berlim, logo depois de ter largado nossos empregos, nossa rotina teve um pouco aquela cara de férias com direito a passeios durante o dia, cerveja de noite, etc. Depois, começamos a trabalhar no Glück como freelancers. A gente tomava café da manhã em casa, trabalhava um pouco, revezava quem ia cozinhar o almoço, trabalhava um pouco mais.

Acho que a grande diferença entre nossa rotina e de alguém trabalhando numa empresa é que num dia de sol lindo, a gente podia sair no meio do “expediente” e ir passear num parque, sabe? Só que às vezes também tínhamos que trabalhar no domingo. Houve outras mudanças: trocamos o carro pelas bicicletas, paramos de comprar roupas e bens materiais e passamos a limpar nossa casa e cuidar dos reparos e afazeres domésticos.

Em julho de 2014, nós voltamos para o Brasil e arrumamos bons empregos antes do final do ano. Eu recebi um aumento de 70% comparado ao emprego anterior. Foi difícil conciliar o Glück com o trabalho e manter a vida simples. Depois de algumas crises, acabo de pedir demissão de novo e, desde a última quinta-feira, estou em casa trabalhando como freela e procurando focar no livro do Glück.

O Fred e a Karin participaram do programa Encontro da Fátima Bernardes, comentando sobre o seu estilo de vida.

 

20P20T: Desde a criação do Glück, quais descobertas ou surpresas o projeto lhes proporcionou com relação ao tema felicidade? Teve algo que foi marcante? Por que?

Fred: A principal coisa foi perceber que tanto a psicologia, quanto a filosofia clássica, a ciência e as religiões orientais parecem concordar que a chave para a felicidade é o autoconhecimento. Ferramentas para atingi-lo (meditação, terapia, leitura, reflexão, yoga, etc.) são bem legais. A relação do dinheiro com a felicidade também é bem interessante. A Karin falou muito bem disso em uma entrevista pro Yahoo: “Não dá para ser feliz quando não se tem onde morar ou o que comer. Nessas condições, o “ter” é muito importante, é o que vai ditar todo o resto da vida, todas as suas preocupações. Mas a partir de um ponto em que as condições básicas de sobrevivência estejam atendidas – um lar, comida no prato, um plano de saúde – sinto que o “ser” começa a ser mais importante.” Aliás, é isso que diversos estudos mostram: dinheiro compra felicidade, sim – mas só até esse nível de subsistência. A partir daí começam a contar outros fatores essenciais, como genética (a sua predisposição natural a ser feliz), acontecimentos recentes, motivações pessoais, etc. Acho que o equilíbrio pode estar aí.

Há centenas de estudos de felicidade por aí, mas um dos que eu mais gosto é o que comparou ganhadores da loteria com vítimas de acidentes traumáticos que ficaram paraplégicos. Os pesquisadores analisaram os níveis de felicidade dessas pessoas antes e depois desses grandes acontecimentos. Os resultados mostraram que, passado certo tempo, nenhum dos eventos tinha tido grande influência sobre o nível geral de felicidade dos estudados. Ou seja, quem era feliz antes não ficou mais infeliz depois de ficar na cadeira de rodas (o que, para pessoas sortudas como nós, é quase impossível de acreditar) e quem era infeliz não ficou mais feliz depois de ganhar na loteria. Acho que isso diz muito sobre o “ter”. Se nem a loteria pode te deixar mais feliz, o que vai poder? É melhor você se concentrar em você.

20P20T: Hoje, depois de morar em Berlim e trabalhando com algo que vocês acreditam, pode-se dizer que tudo valeu a pena? Do que vocês tiveram que abrir mão para fazer o que gostam?

Fred: Valeu muito a pena! Acabo de voltar a trabalhar com algo próprio, mas passei quase um ano de volta à uma empresa de jornalismo. Acho legal falar isso pra não romantizar demais nosso estilo de vida. Não existe vida perfeita, nem felicidade eterna e todo mundo precisa do mínimo de dinheiro para sobreviver. 

Acho que, especialmente no nosso ano sabático, tivemos que abrir mão desses pequenos luxos da classe média e da segurança financeira. Mas não foi nada heróico. O trabalhador brasileiro sofre bem mais do que a gente todo mês, hehehe. Quem ganha bem em São Paulo pode comer em bons restaurantes, comprar roupas bacanas quando quer, ter um carro, alguém pra limpar sua casa, etc. Quem quer ter uma vida mais simples, precisa rever todos esses gastos.

“Berlim, 2013. Toda sexta postaremos uma ‘foto retrospectiva’ do nosso ano sabático para nos dar coragem (e quem sabe aos nossos leitores) a voltar a viver focado em uma vida mais feliz e menos com a opinião e as pressões do mundo externo. Se quiser, compartilhe com a gente seu próprio #gluckproject.” – Texto postado no dia 25/09 na página do Glück do Facebook

 

20P20T: Vemos uma tendência nos jovens em criar novos modelos de trabalho e de negócio, em que possam se realizar pessoal e profissionalmente. Qual dica vocês dão para aqueles que desejam seguir uma carreira fora do comum?

Fred: Planeje bastante, reflita sobre o que você realmente quer fazer, procure guardar algum dinheiro e tenha perseverança, pois as coisas não costumam acontecer de uma hora para outra. Busque o autoconhecimento para entender o que te move. E não dê ouvido para tudo que as pessoas dizem. Viver para atender as expectativas alheias é sufocante. Além disso, acho que estamos vivendo num momento muito interessante da história em que os modelos de trabalho tem sido repensados mesmo nas grandes empresas. Quem tiver ideias inovadoras agora vai se dar bem.

20P20T: Quais são os seus planos e do Glück para o futuro?

Fred: A Karin está grávida agora, então o nosso principal plano pro futuro é ter nosso filho com saúde e amor. Estou trabalhando no livro do Glück que precisa ficar pronto até o final do ano e temos uma palestra pra fazer sobre o projeto na Somos Educação. Nossa banda também está gravando um disco que deve ficar pronto até o final do ano. Além de tudo isso, quero ver se consigo encontrar uma forma de viver como autônomo sem bater cartão diariamente numa empresa. Vamos ver o que 2016 nos reserva.

O Fred e a Karin acreditam que a educação, aliada ao hábito de ler livros, é a melhor arma numa revolução pacífica que pode mudar as pessoas e o mundo. Por isso, criaram a campanha “Livros mudam vidas”. Saiba mais no site do Glück.

20P20T: Para vocês, o que é a felicidade? Pode-se dizer que ela está relacionada a fazer o que se ama? 

Fred: Bom, essa é uma pergunta clássica, mas difícil. Felicidade é um caminho, não uma meta final. É uma sensação de ausência de dor/tristeza provocada por algo diferente para cada pessoa e para cada momento da vida daquela pessoa. A felicidade não é estática e pronto. Temos momentos felizes (que podem ser muitos e consecutivos), mas não uma contínua e automática felicidade. Freud, pai da psicologia, costumava dizer que felicidade é obter prazer e evitar desprazer. Fazer o que se ama pode ser uma das formas de deixar sua vida mais feliz, mas com certeza não é a única. Felicidade não está só relacionada ao trabalho, mas a ter pessoas que você ama a sua volta, ter uma boa qualidade de vida, etc. Existem muitos caminhos para a felicidade e a principal ferramenta para alcançá-los é o autoconhecimento.

Foto por: Julia Rodrigues Fotogafia

Para acompanhar o Glück Project, acesse o site e conheça a página do projeto no Facebook. Mantenha-se informado sobre as novidades e campanhas do Glück pelo Instagram e pelo Twitter.

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4 pensamentos em “Fred e Karin: Muito além da felicidade

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